Levei o carro para a inspeção. O funcionário imediatamente notou umas emendas da carroceria e pegou um longo e pontudo gancho para verificar se foram de metal. Bem, foram de massa epoxi e o gancho imediatamente fez uns vistosos buracos. Satisfeito, informou que tenho duas semanas para voltar com a lataria consertada. Fiquei mudo pois já fui avisado como correm essas inspeções. Estacionei o carro e esperei para ver se a minha amiga, a próxima na fila, enfrentaria alguns problemas. Esta vez a carroceria não interessou o funcionário, mas já que o carro era esportivo, colocou-o na esteira e acelerou violentamente. Quando o velocímetro indicava 150, freou com a mesma violência. Incomodado por algum barulhinho repetiu o processo freando no estilo pé do hipopótamo. Esta vez não foi um barulhinho mas um barulhão e aparentemente os freios terminaram a sua vida útil. Viu? indagou o funcionário. A amiga, chocada, tentou protestar: mas em toda minha vida eu nunca freei desse jeito! e ouviu do sorridente funcionário: e gostaria de ter tentado pela primeira vez na autostrada? Tive impressão que ele gostou do seu trabalho.
Raramente tem-se um EC a sua disposição. Um observador crítico, atento e criativo em construção de exemplos-demolidores (contra-exemplos, diz-se na gíria profissional) provavelmente tem melhores coisas para fazer do que investigar os erros intelectuais do seu próximo; talvez esteja engajado na produção dos próprios. Portanto o autor autor de qualquer coisa, da definição, do teorema, de teoria tem que fazer esforço para sair de si e ver a sua obra com o olhar alheio e pouco amigável. Melhor fazer isso na esteira do que sofrer um desastre na autostrada.
Tenho impressão que aqui estã uma importante diferença entre alguém das ciências sociais ou artista e um matemático. No trabalho deles a busca de perfeição também exige um olhar extremamente crítico mas uma minúscula falha mais facilmente está absolvida. Aqui qualquer absolvição dada para uma falha é um suicídio científico.
Regras do Espírito Contestador
Além das regras que regem a destruição vale a pena ter umas regras sobre construção. No fundo, são cara e coroa do mesmo processo, mas surgem com diferente força em diferentes etapas do trabalho.
Não são as regras que indicam como criar e nem sei se após
Arthur Koestler
alguém sério tentou ensinar como ser um criador
(veja [11]), são as regras da formação de orações do tipo
se
então
, as orações que carregam quase todo
o conteúdo matemático.