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Regras do jogo

O Espírito Contestador, abreviado a EC, e o melhor amigo que qualquer estudioso (seja leigo, estudante ou cientista) pode ter. A companhia pouco apreciada na vida cotidiana, dispensada com as ironias do tipo “o fulano encarou o espírito de porco”, é um mixto de caça-bobagem é de TÜV. Ah, você não conhece a instituição? A alemã TÜV (Technischer Überwachungsverein – Associação de Inspeção Técnica) atua em várias áreas mas um cidadão comum associa-a mais forte com a inspeção bienal de seu carro. Segue aqui uma ilustração em forma de uma estorinha pois é um bom modelo de atuação de EC consciente e competente.

Levei o carro para a inspeção. O funcionário imediatamente notou umas emendas da carroceria e pegou um longo e pontudo gancho para verificar se foram de metal. Bem, foram de massa epoxi e o gancho imediatamente fez uns vistosos buracos. Satisfeito, informou que tenho duas semanas para voltar com a lataria consertada. Fiquei mudo pois já fui avisado como correm essas inspeções. Estacionei o carro e esperei para ver se a minha amiga, a próxima na fila, enfrentaria alguns problemas. Esta vez a carroceria não interessou o funcionário, mas já que o carro era esportivo, colocou-o na esteira e acelerou violentamente. Quando o velocímetro indicava 150, freou com a mesma violência. Incomodado por algum barulhinho repetiu o processo freando no estilo “pé do hipopótamo”. Esta vez não foi um barulhinho mas um barulhão e aparentemente os freios terminaram a sua vida útil. “Viu?” indagou o funcionário. A amiga, chocada, tentou protestar: “mas em toda minha vida eu nunca freei desse jeito!” – e ouviu do sorridente funcionário: “e gostaria de ter tentado pela primeira vez na autostrada?” Tive impressão que ele gostou do seu trabalho.

Raramente tem-se um EC a sua disposição. Um observador crítico, atento e criativo em construção de exemplos-demolidores (contra-exemplos, diz-se na gíria profissional) provavelmente tem melhores coisas para fazer do que investigar os erros intelectuais do seu próximo; talvez esteja engajado na produção dos próprios. Portanto o autor – autor de qualquer coisa, da definição, do teorema, de teoria – tem que fazer esforço para sair de si e ver a sua obra com o olhar alheio e pouco amigável. Melhor fazer isso na esteira do que sofrer um desastre na autostrada.

Tenho impressão que aqui estã uma importante diferença entre alguém das ciências sociais ou artista e um matemático. No trabalho deles a busca de perfeição também exige um olhar extremamente crítico – mas uma minúscula falha mais facilmente está absolvida. Aqui qualquer absolvição dada para uma falha é um suicídio científico.

Regras do Espírito Contestador

  1. O que não está expressamente proibido, está liberado.
  2. Se pode atrapalhar impunemente, faça-o.
  3. “Ter sentido” ou “não ter sentido” não é uma preocupação do EC. O olhar dele é técnico, não ideológico.

Além das regras que regem a destruição vale a pena ter umas regras sobre construção. No fundo, são cara e coroa do mesmo processo, mas surgem com diferente força em diferentes etapas do trabalho.

Não são as regras que indicam como criar – e nem sei se após Arthur Koestler alguém sério tentou ensinar como ser um criador (veja [11]), são as regras da formação de orações do tipo se $ \alpha$ então $ \beta\,$, as orações que carregam quase todo o conteúdo matemático.

Regras Húngaras

  1. Minimize a quantidade de condições iniciais (hipóteses).
  2. Se há tão poucas hipóteses que não dá para provar coisa alguma além de truismos completos, esqueça a regra anterior.
  3. Maximize o volume de conclusões (teses), isto é: generalize as constatações tanto quanto você consegue.
  4. Se formulação e demonstração ficariam muito pesadas (ou se você nunca usaria esta generalidade), esqueça a regra anterior.
  5. Se a constatação não vai servir para nada até o final do {trabalho, semestre,curso}, acrescente no começo: “É curioso mas pouco importante notar que...”.
  6. Se aquela constatação aparece justamente no final do {trabalho, semestre,curso}, esqueça a regra anterior.


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